quarta-feira, 20 de julho de 2016

Enquanto ainda

ENQUANTO AINDA

Beber água do rio Ganges
dançar mosh ao som de Bach
suportar jejum de Gandhi
lançar mirra a Iemanjá
sambar nas sepulturas
arriscar uma aventura
só pra ver onde vai dar.

Tomar banho com aguardente
e sorvete com hashi
fumar um milho verde
se despir para sair
tostar ao sol das duas
rituar nus para a Lua
divagar e confundir

debulhar os nossos medos
enganar nossos segundos
gargalhar nossos segredos
e trocar com todo mundo
fazer de tudo um pouco
inda que nos digam louco
se puder fazer de tudo.


♪ Izabella Medina; O.A.
♪ 20 de julho de 2016
♪ 12:05h

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Sísifo e o mar

SÍSIFO E O MAR

Foi então que ela veio,
feito quem não quer nada,
destruir meus castelos
com sua água salgada.

Izabella Medina; O.A.
15 de julho de 2016
02:35h




quarta-feira, 13 de julho de 2016

Dose única

DOSE ÚNICA

É por eu estar tão cheio
que meu copo está vazio.

Eu vesti seus devaneios,
desbotei meu céu anil

e rasguei os meus preceitos,
venerei os seus desvios.

Eu tornei-me, assim, alheio
nesse seu colo macio,

afoguei-me nos anseios
dum querer mais doentio

do que todos os desejos
desse seu olhar vadio.

Escarrei os meus receios,
esculpi um verso vil,

atirei-me nesse enleio,
minha lucidez ruiu…

Mas foi no seu riso meigo
que perdi todo meu brio.

Hoje, eu vivo de tropeços,
desde que você partiu.

Nas lembranças, cambaleio,
forjo nossos sonhos mil.


♪ Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 13 de julho de 2016
♪ 01:20h; 15:11h

terça-feira, 5 de julho de 2016

MIL ABUTRES

MIL ABUTRES
Os teus pés, tu sacrificas,
pra poupares o teu rosto;
eu contesto que te sintas
impotente em teu desgosto,
a dizer que houve luta…
– nem fizeste tanto esforço!
Envergonha tua conduta
de quem se atira ao fosso,
a dizer "Com que alívio!"
– não te sejas tão infame!
Mil abutres são precisos
pra negar-te em teus vexames,
engolfando-se no abismo
infinito do teu sangue.

♪ Izabella Medina; O.A.
♪ 05 de julho de 2016
♪ Série Diálogo

O Abutre, de Franz Kafka:
"Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava- me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina..."
Conto completo: <http://alpendredalua.blogspot.com.br/2011/01/conto-o-abutre-de-franz-kafka.html> 

domingo, 3 de julho de 2016

TEU ANJO, EU? ESCUTA!

TEU ANJO, EU? ESCUTA!

Não quero brisas de suspiro infante
nem que me chores nos sonhos teus.
Com brandas queixas, não mais me canses,
nem com lamúrias, e pranto, e eu,

que tanto erro em outros mundos,
querendo errar nesse mundo teu,
eu poderia torná-lo imundo,
se me atirasses àquele breu,

se não dissesses que sou formosa
nem te alegrasses com risos meus,
se risses sempre ao me ver chorosa,

se definhasses de amor ateu;
nenhuma lágrima lutuosa,
derramarias dos olhos teus.

♪ Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 02 de julho 2016
♪ Série Diálogos


LÁ!

LÁ!

Com o vento em minhas mãos,
o meu roxo véu eu giro,
vou seguindo a intuição,
dou meus pulos, improviso
e um novo passo arrisco,
pra compor a intenção
de quem quer viver de circo
lá no Vale do Capão.

Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 21 de junho 2016

RABISCOS

RABISCOS 

Quem, da espera, fez sossego
tratou de apagar a dor
ou, dela, fez arremedo
nos risos que desenhou.

Se nem mesmo sentiu medo
ou se do medo olvidou,
se ausência não tem cheiro,
não tem gosto e não tem cor,

por que turva esses janeiros
com chuvas, saudade e bolor?
Porque, de promessa, é feito

o caminho de quem não voltou;
e, se não se pode dar jeito,
repete o que já rabiscou.

♪ Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 18 de junho 2016

INTOCÁVEIS

INTOCÁVEIS

Ah, menina, o que te deu,
o que queres, tu, de mim?

Não te encantes com meu brilho
– esse brilho nem é meu!
Volta a ti e põe um fim
nesse desvario teu.

Eu não quero tuas asas,
nem teu corpo, nem teu canto,
nem os teus olhos em brasa,
eu não quero ouvir teu pranto.

Não te percas em teus sonhos,
não comeces a ruflar,
não te causes esse dano,
nem te atrevas a voar!

Não desejes o oceano,
só me deixa te banhar…
Abomino esse teu plano
de querer descer ao mar.

♪ Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 24/25 de maio 2016
♪ Série Diálogos 

<http://www.releituras.com/alphonsus_ismalia.asp>

NOVO ENREDO

NOVO ENREDO

Vês? Partiu tão cedo a lua…
Escondeu-se nos rochedos
e deixou-te à escura rua.

Com lua, os meus apelos
se confundem com a tua
tola caixa de desejos.

Pois que o teu receio flua!

Elabora um novo enredo,
que tão logo se destrua.
Não me tragas arremedos

que a saudade não dilua.
Cria mundos com o zelo
que o tempo desconstrua.


Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 18 de maio de 2016

MAIS UM SUPERLATIVO

MAIS UM SUPERLATIVO*

Abrimos as sacolas plásticas. Elas traziam o cheiro horrível de mercado. Retirei a garrafa branca, olhei-a… Após alguns instantes, soergui a botelha com dramático espanto e exclamei: Leitíssimo! Não foi a última palavra que proferi neste mundo. Ainda bem.


Enquanto a maioria fala apenas da suposta traição de Capitu...


Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 10 de maio de 2016
♪ Série Diálogos


SEMPRE ESCRAVO DA TERNURA

SEMPRE ESCRAVO DA TERNURA

Quisera viver, sem medo,
com o zelo dos imorais,
um conto em que teus dedos
pudessem ser os corais.

♪ Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 07 maio 2016
♪ Série Diálogo

E NÃO TE CONDENSES MAIS!

E NÃO TE CONDENSES MAIS!

Não quero sentir a dor
dele, que é água,
condenado a vapor.

Condensa apenas as mágoas
e contesta teu destino!
Não sejas tuas lágrimas

caindo.


♪ Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 06 de maio de 2016

O CACTO

O CACTO

Em minha terra natal,
coisa feia é jaburu,
e o que voa o pantanal,
nós chamamos tuiuiú.

Mas, em meu singelo lar,
minha ave é plantada.
Mesmo sem poder voar,
vê ocasos e alvoradas.

Belo, áspero, intratável,
cresce rumo ao céu azul,
vai virar a minha casa,
meu filhote Tuiuiú!


Izabella Medina O.A.
♪ 05 de maio de 2016



ADORÁVEL DISGEUSIA

ADORÁVEL DISGEUSIA

Jamais proferiu queixa alguma,
mesmo as que faziam sentido.
Engolia as palavras raivosas,
mantinha acanhado sorriso;
podia jurar amorosas!
Vivia seu mundo torcido
de injúrias tão preciosas.
Tudo era logo esquecido.


♪ Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 04 de maio de 2016

DO SABER DUMA GAIVOTA

DO SABER DUMA GAIVOTA

Coitadinha dessa tonta,
que vem todo dia ao mar,
esperar pelo amado
que não mais retornará.

Todo dia canta, às ondas,
um lamento sem tamanho
e esbraveja sua tristeza
- isso, eu sempre acompanho.

Do seu senso não mais dona,
pede ajuda ao doce vento,
pede novas do amigo,
que lhe traga algum alento;

e, ao mar, insiste, conta
seu profundo dessabor,
do seu riso que não volta,
do sofrer tanto de amor...

Isso, é certo, não me espanta,
pois a tradição lavrou:
a donzela é uma anta,
que o esperto enganou!

Da Série Diálogos, o poema é inspirado na cantiga medieval Altas undas que venez suz la mar, de Raimbaut de Vaqueiras.

♪ Izabella Medina ♪ O.A. 
♪ 03 de abril de 2016

CAFEZINHO DA LOZA

CAFEZINHO DA LOZA

                                         a Eliana, minha tia, pela acertada epifania

Nunca se marcava hora
para estarem reunidos
– filhos, netos, genros, noras,
jarra, borra no tecido.

O café nunca faltava,
esquentava a falação;
minha avó o preparava
com a mesma precisão:

nunca descartava a sobra
e, a ela, adicionava
o amor daquelas horas,
o pó denso, a nova água.

Tudo junto ao coador,
sob o som de cantorias,
sempre um tio conversador
incitando a alegria.

O café da minha avó
junta anos de labor,
não é só a água, o pó,
é uma vida de valor,

e tem no seu bem maior
remontar muitos momentos.
O café de minha avó
inda é o do casamento!


♪ Izabella Medina ♪ O.A.
♪ 02 de maio de 2016

UM NARIZ PARA FILHO

UM NARIZ PARA FILHO

Cara, fique sóbrio,
fique atento ao que diz.

Leia e-mails, veja fotos,
jogue limpo, faça um quiz…

Só não passe a noite inteira,
a sonhar com um nariz.


Izabella Medina ♪ O.A.
01 maio 2016

CRÔNICA

CRÔNICA

Olha, eu ando por aqui
desse povo tão experto,

de intelecto sem freio,
que se julga sempre certo,
culto, justo, tão liberto
em bradar discurso alheio.

E nem quero ouvir falar
dessas nobres minorias,

com afã de justiceiras,
que, berrando hipocrisias,
reivindicam regalias,
de que querem ser herdeiras.

Também ando impaciente
com o mundo dos perfeitos,

gente boa, rica e linda.
Numa vida sem defeitos,
sob a graça dos efeitos,
a alegria nunca finda.

Para onde vai o bonde,
levando esses sabidos,

guiado por torpes heróis,
lotado de rostos torcidos,
com tanto valor invertido
de gente que nada constrói?

Vasto mundo traiçoeiro,
mais parece uma cilada!

Se eu me chamasse Fausto,
não daria mesmo em nada,
só seria um nome falso
numa crônica rimada.

Izabella Medina ♪ O.A.
29 de abril 2016
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