sábado, 15 de setembro de 2012

De volta a casa

DE VOLTA A CASA


Retorno a casa e, de imediato, ela me esquece e foge, mas deixa espaço para outras. Com esta, fui cruel, fútil, o melhor e, às vezes, débil (mas o soube disfarçar bem). Assim não sou, porém, até atravessar a porta, de volta do campo de batalha. Agora, entretanto, abrigado, em total segurança, escolho uma entre muitas: a minha favorita! É que Ela me liberta: ando nu, ouço a música de que gosto – mas que a muitos desagrada – e digo (nisso eu acredito) o que me vem do coração. Ela impulsiona meu diafragma a soltar a voz. Ela não me condena, nunca o faria. Relaxo, gozo, digo palavrões, posso até beber (muito) mais que o permitido e usar aquilo que jamais me atreveria… com Ela! Com Ela, posso comer a comida chique e dizer que é ruim pra caralho, posso até ser gentil com minha sogra ou mandar a infeliz se foder. É Ela, pois, quem me livra e me prende dentro do que sou e daquilo que acredito ser. Então posso dormir em paz, ainda que, à luz do primeiro raio de Sol, eu deva deixá-la outra vez, para voltar a ser cruel, fútil, o melhor e, às vezes, débil (mas o sabendo disfarçar muito bem). Levanto de nosso ninho, ainda sinto Seu cheiro, Seu calor, nem queria lavar o corpo para não permitir-lhe a fuga. Abraço-a, beijo-a ternamente e sinto Seus braços beijarem minha face. Mas devo partir… Não sei ao certo se, ao voltar, vou encontrá-la do mesmo jeito ou se, de repente, revolto e incerto de minha rendição, queira mandá-la ao Diabo. Abro a porta, descarto-a, esqueço-a. Mas ao regressar, porém, preciso possuí-la outra vez: Seus olhos, Sua boca, Suas narinas, Amém!

Oria Allyahan
Sem registro
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