
Retorno a casa e, de
imediato, ela me esquece e foge, mas deixa espaço para outras. Com esta, fui
cruel, fútil, o melhor e, às vezes, débil (mas o soube disfarçar bem). Assim
não sou, porém, até atravessar a porta, de volta do campo de batalha. Agora,
entretanto, abrigado, em total segurança, escolho uma entre muitas: a minha
favorita! É que Ela me liberta: ando nu, ouço a música de que gosto – mas que a
muitos desagrada – e digo (nisso eu acredito) o que me vem do coração. Ela
impulsiona meu diafragma a soltar a voz. Ela não me condena, nunca o faria.
Relaxo, gozo, digo palavrões, posso até beber (muito) mais que o permitido e
usar aquilo que jamais me atreveria… com Ela! Com Ela, posso comer a comida
chique e dizer que é ruim pra caralho, posso até ser gentil com minha sogra ou
mandar a infeliz se foder. É Ela, pois, quem me livra e me prende dentro do que
sou e daquilo que acredito ser. Então posso dormir em paz, ainda que, à luz do
primeiro raio de Sol, eu deva deixá-la outra vez, para voltar a ser cruel, fútil,
o melhor e, às vezes, débil (mas o sabendo disfarçar muito bem). Levanto de
nosso ninho, ainda sinto Seu cheiro, Seu calor, nem queria lavar o corpo para
não permitir-lhe a fuga. Abraço-a, beijo-a ternamente e sinto Seus braços beijarem
minha face. Mas devo partir… Não sei ao certo se, ao voltar, vou encontrá-la do
mesmo jeito ou se, de repente, revolto e incerto de minha rendição, queira
mandá-la ao Diabo. Abro a porta, descarto-a, esqueço-a. Mas ao regressar,
porém, preciso possuí-la outra vez: Seus olhos, Sua boca, Suas narinas, Amém!
Oria Allyahan
Sem registro