quinta-feira, 31 de julho de 2014

Enquanto isso, no Mundo dos Ursinhos Carinhosos...

ENQUANTO ISSO, NO MUNDO DOS URSINHOS CARINHOSOS...

                                                                                                                      aos muito esperançosos 

Amor sem fim e Valente
repetiram, a Vovó,
a ideia insipiente
que soou num berro só:

"É que in statu quo
ante bellum res erant,
sequer virava pó
o mais puro diamante!"

Boa Sorte e Vovó
escutavam sabiamente.
C. Gelado e Frio Nalma
apareceram de repente,

para aumentar o trauma
dos ursinhos inocentes,
que tremiam ao ouvir
o Argumento Consciente,

formulado por Vizir
por Malvado e Doutor Susto,
por Biguá e San Azedo,
lá na Terra dos Injustos,

das Sobras e do Medo,
bem longe da Nuvem Rosa
(onde tudo era segredo
e a vivência harmoniosa).

Frio Nalma e C. Gelado
mostraram o Livro Negro,
onde estava consagrado
o saber do Mundo inteiro.

Lá, no Mundo dos Injustos,
o Argumento Consciente
já nem era mais segredo
e soava mais coerente:

"Tudo era perfeito,
harmonia sufocante,
não havia desrespeito
para com o semelhante,

Nenhum urso, aqui, sofria,
desde quando era infante
e até a dor sorria
da dor, quando diante.

Mentiras não havia,
e em todo semblante
só se via alegria
sincera e irritante.

Sentir melancolia
quando tudo é rutilante,
afogar-se em nostalgia
se o mundo é cintilante?

Para quê se, bellum ante
res erant in statu quo,
o mais puro diamante
sequer virava pó,

se tudo era direito,
se o amor era abundante,
se nada tinha defeito,
nesta esfera extravagante,

se o mundo respirava
em relvas verdejantes,
se ninguém imaginava
o que viria adiante?

Para quê?", ele insistia,
"Para quê, se, desde antes,
era a mesma hipocrisia
nesta terra tão brilhante?"

Com seu riso que não ria
e, fitando a Vovó,
C. Gelado prosseguia:
"Mas pra quê, se in statu quo

ante bellum res erant,
sequer virava pó
o mais puro diamante?
Boa sorte, Boa Sorte,

Amor, Vovó, Valente...!
Eu prefiro mesmo a morte
a suas vidas decadentes,
prefiro voltar ao pó,

a agir feito demente!
Enforquemos, num cipó,
a burrice dessa gente!!"
E, naquela Rosa Nuvem,

foi intenso o alvoroço;
afinal, queria alguém
morrer pelo pescoço?
Foi real a gritaria

que até hoje se ouve,
porque, lá, reincidia
o mau que sempre houve.
Toda hora e todo dia

vemos pó de diamante
e de pouca harmonia
são mais nossos instantes.
De que serve a fantasia?..

In statu quo res erant ante bellum:
No estado em que as coisas estavam antes da guerra


 Oria Allyahan ♪ 31 de julho de 2014 ♪ 12:10h; 13:00h 

domingo, 27 de julho de 2014

Memórias de uma carniça

MEMÓRIAS DE UMA CARNIÇA

                                                                                                  aos infinitos pontos de vista

Esturricada ao solo, estava
à espera de meu amado.
Do chão, morta e atirada,
eu o vi com outra ao lado.

Com minhas pernas para o ar,
chamei sua atenção,
ventre aberto a convidar,  
tressuei vício e paixão.

Desabrochei como uma flor
e exalei o meu perfume,
à vadia, causei horror,
ao meu amado, deslumbre.

Enciumado, o vi ficar 
do que viu por mim sobre:
moscas mil a contemplar
e a lamber meu corpo podre,

do Sol que me cozinhava,
intenso ódio sentiu,
ao céu que me contemplava
ele o inferno preferiu;

e o que dizer do verme
que meu corpo beliscava
e adentrava a epiderme
como ele penetrava

a vagina da vadia
que, com nojo, me fitava?
Era a mim que ele queria
quando para ela olhava!

Eis, aqui, a confissão
que a cretina mereceu: 
"Lindo amor, minha paixão,
astro dos olhos meus,

quando após a extrema-unção
vieres apodrecer, 
horripilante infecção,
assim, tu hás de ser.

Oh!, rainha das Graças,
igual a essa imundícia
sob flores e ervas baças,
céu da minha delícia.

Verei teu perecer,
verei teus brancos ossos.
E o que vai permanecer
além de teus destroços?

Essas larvas libertinas
te beijarão em lentos gostos,
mas a essência divina
de meus amores decompostos

ficará eternamente
amalgamada à natureza
como está esta impudente,
esta infecta impureza."

Aos pedregulhos, atirada,
vou cumprindo minha sina
de carniça desolada,
renegada, à esquina,

carcaça ostentosa
sob chuva, sol, neblina,
ao relento, nauseosa,
a sentir essa rotina

dos seu olhos sobre mim
e a lamber-me a inquilina.
Da morte (eterno fim?),
nos separa a linha fina.

Para mim e meu amado,
então, fechem as cortinas!
Mesmo com a vadia ao lado,
seu fascínio não termina,

sei que está obsedado
por meu cheiro em sua narina
por meu corpo abandonado
para as aves de rapina.


Oria Allyahan

♪ 26 de julho de 2014 - 18:43h; 19:10h ♪
♪ 27 de julho de 2014 - 16:14h ♪


Inspirado no poema Uma carniça, do poeta francês Charles Baudelaire (1821–1867); Tradução do poeta baiano Álvaro Reis (1880 – 1932).


Leia em: <http://borgesdosreis.wordpress.com/2011/04/08/poesia-uma-carnica-charles-baudelaire/>.


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