segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Análise morfossintática do elemento dito humano

 ANÁLISE MORFOSSINTÁTICA DO ELEMENTO DITO HUMANO

a Marina Carvalho

Tudo bem que o mundo avance!
Tudo bem que o trabalho nos canse!
Tanto faz se a vida for só um lance…

Tudo bem que um ou outro morra!
Tudo bem que isso alguém comova!
Tanto faz que ali nunca chova…

Tudo bem se é só isso que ela come!
Tudo bem se o mundo todo se consome!
Tanto faz se uma cambada morre de fome…

Tudo bem se o amor não te quis!
Tudo bem se “amor” você nunca diz!
Tanto faz se te restou uma cicatriz…

Tudo bem se esse ano você não foi ao dentista!
Tudo bem que duvidem que alienígena exista!
Tanto faz que você não insista…

Tudo bem que ele nunca chore!
Tudo bem que ela sempre demore!
Tanto faz que um reze, um dance e outro ore…

Tudo bem se ele brincava de boneca!
Tudo bem se ela quis dar a xereca!
Tanto faz que lhe pague uma merreca…

Tudo bem se não fizermos bem nosso papel!
Tudo bem que não nos tirem o chapéu!
Tanto faz que um dia desça fogo do céu…

Tudo bem se não fiz nada direito!
Tudo bem que não haja ser perfeito!
Tanto faz se uns nascem com defeito…

Tudo bem se você teve mais de um batismo!
Tudo bem se você quer pagar o dízimo!
Tanto faz que pratiquem terrorismo…

Tudo bem se você muito pouco sorriu!
Tudo bem se papai Noel nunca existiu!
Tanto faz se fores chorar pra puta que te pariu…

O.A.: 13 de setembro de 2012 ♪ 03:13h
O.A.: 13 de setembro de 2012 ♪ 21:36h


domingo, 14 de outubro de 2012

Testemunho

TESTEMUNHO

                                                        a David Medina, doce brisa n'alma

Queria que fosse meu verso
como pequeno grão de rocha
e que, longe do vento, possa
permanecer ainda inteiro;
The Shiprock Inselberg, Navajo, Novo México

e queria que ele estivesse
em pontos internos, profundos,
e que força alguma do mundo
levá-lo da fonte pudesse.

Mas, se assim meu verso o fosse, então,
sem sol, ou chuva, ou mar e vento,
seria verso perdido, em vão,

e versos que, ao canto do tempo,
tão vivos, mas mortos, rirão
matizes de perecimento.


♪  Oria Alyahan 
02/01/12, 03:07h;
10/10/12, 18:23h;
13/10/12, 15:24h.


sábado, 15 de setembro de 2012

De volta a casa

DE VOLTA A CASA


Retorno a casa e, de imediato, ela me esquece e foge, mas deixa espaço para outras. Com esta, fui cruel, fútil, o melhor e, às vezes, débil (mas o soube disfarçar bem). Assim não sou, porém, até atravessar a porta, de volta do campo de batalha. Agora, entretanto, abrigado, em total segurança, escolho uma entre muitas: a minha favorita! É que Ela me liberta: ando nu, ouço a música de que gosto – mas que a muitos desagrada – e digo (nisso eu acredito) o que me vem do coração. Ela impulsiona meu diafragma a soltar a voz. Ela não me condena, nunca o faria. Relaxo, gozo, digo palavrões, posso até beber (muito) mais que o permitido e usar aquilo que jamais me atreveria… com Ela! Com Ela, posso comer a comida chique e dizer que é ruim pra caralho, posso até ser gentil com minha sogra ou mandar a infeliz se foder. É Ela, pois, quem me livra e me prende dentro do que sou e daquilo que acredito ser. Então posso dormir em paz, ainda que, à luz do primeiro raio de Sol, eu deva deixá-la outra vez, para voltar a ser cruel, fútil, o melhor e, às vezes, débil (mas o sabendo disfarçar muito bem). Levanto de nosso ninho, ainda sinto Seu cheiro, Seu calor, nem queria lavar o corpo para não permitir-lhe a fuga. Abraço-a, beijo-a ternamente e sinto Seus braços beijarem minha face. Mas devo partir… Não sei ao certo se, ao voltar, vou encontrá-la do mesmo jeito ou se, de repente, revolto e incerto de minha rendição, queira mandá-la ao Diabo. Abro a porta, descarto-a, esqueço-a. Mas ao regressar, porém, preciso possuí-la outra vez: Seus olhos, Sua boca, Suas narinas, Amém!

Oria Allyahan
Sem registro

sábado, 18 de agosto de 2012

Poeta moribundo

POETA MORIBUNDO



Fez do sangue de seu corpo
mera tinta de caneta
e escreveu sequer um verso.

A palavra, rasgando-lhe o dorso,
fazia escorrer do papel carne
a rubra tinta. Viu-se nela submerso,

de súbito, o poeta, e absorto,
infecundo, sem rumo, sem timbre.
Nem palavra ou torto verso

mais brotava de seu tronco
nem podia mais ser livre,
mas perdido e sem porto;

e mesmo com tanto labor,
morreu em um segundo.
Diga, então, caro leitor,

se há dor maior no mundo?
Dilacera um'alma a cor,
de um poeta moribundo.

 Oria Allyahan & Marina Carvalho
17:12h, 14 de abril de 2012
13:42h, 04 de agosto de 2012

sábado, 26 de maio de 2012

Confabulando

CONFABULANDO

O jumento disse:
- Bata mais devagar, senão empaco!
E o homem não disse, zurrou em cima da carroça, com o matinho na boca e rédeas nas mãos.


O.A. 25 de maio de 12; 09:55h 

sábado, 5 de maio de 2012

Lampejos da razão


LAMPEJOS DA RAZÃO*

ao professor Roberval Pereyr

A cena foi vista de binóculo:
viu em seu chapéu um rouxinol pousar;
e julgou, o leitor, que o eu-lírico,
diante do espelho,
pôs-se atento a observar.

Ainda assim, foi para dentro,
para dentro de si mesmo,
tão profundo aquele olhar...


* Inspirado no poema “Cena vista de binóculo”, do poeta e pintor baiano Antonio Brasileiro (1944-), e numa aula de Teoria da Literatura.

♪ O.A. 21 de nov de 2011; 02:06h

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Mal-estar





MAL-ESTAR

Acordou atordoado. Olhou, sonolento, o dia pela janela: a luz já se fazia presente. Ainda na cama, fitou o rádio relógio, que tocava aquela música e marcava sete da manhã. A luz do sol era ainda tênue. Analisou seu relógio de pulso analógico e viu que era noite ainda. Arrebatou, desesperado, o celular do criado-mudo. A tarde chagara...


O.A.: 19 de fev de 2011  

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