sábado, 24 de janeiro de 2015

O DESPROPÓSITO DO OUVIR

O DESPROPÓSITO DO OUVIR

Disseram-me, um dia,
que estava, o destino,
escrito nas estrelas.

Eu não fiz como o poeta,
que deu, a quem duvida,
a tão conhecida réplica,

mas tentei, por deus!, ouvi-las
e saber de minha sorte,
conhecer a minha sina,

até mesmo minha morte.
Eu estava, sim!, desperto
e olhei pelo recorte

da janela e contemplei
o luzente pálio aberto;
e, a elas, perguntei

o que é esse deserto
de meu coração inóspito,
que se julga sempre certo

e só segue a própria lei.
De que serve o despropósito
de buscá-las, quando sei

que jamais irei ouvi-las, 
quando sei que nada amei,
que meu mundo é uma ilha,

em que nada semeei
e onde a água nem cintila!?
Logo, veio o astro rei

em sua glória de alvorada,
reclamar o seu encanto
e obrigar a retirada

do que, à noite, admirei.
Ao ficar saudoso e em pranto
foi, então, que eu notei

qual seria a minha sina
e, decerto, minha morte.
Eu fechei minhas cortinas,

apostei a minha sorte
e também as minhas fichas
noutra chance e esperei

o findar daquele dia,
para vê-las outra vez
e tentar, de novo, ouvi-las,

não amar para entendê-las;
pois, somente quem não ama
e que é perdida ilha

é que pode amar estrelas.
Está, nelas, meu destino!
O amor, eu encontrei!

O meu novo desatino
é buscá-las, quando sei
que são, elas, do espaço,

que, de amor, eu morrerei,
que jamais irei vesti-las
com meu corpo, num abraço,

que, aos céus, estão unidas,
não a mim em meu terraço...
A fitá-las cedo ainda,

mesmo com todo cansaço,
tresloucado eu viverei,
a invejar o firmamento,

a odiar o astro rei,
a seguir em meu intento
e a contar o que lereis

nestes versos sonolentos,
de quem já perdeu o senso
 a semente que plantei.


22 de janeiro de 2015, 02:22h; 12:45h
23 de janeiro de 2015, 22:35h;

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...