O DESPROPÓSITO DO OUVIR
Disseram-me, um dia,
que estava, o destino,
escrito nas estrelas.
Eu não fiz como o poeta,
que deu, a quem duvida,
a tão conhecida réplica,
mas tentei, por deus!, ouvi-las
e saber de minha sorte,
conhecer a minha sina,
até mesmo minha morte.
Eu estava, sim!, desperto
e olhei pelo recorte
da janela e contemplei
o luzente pálio aberto;
e, a elas, perguntei
o que é esse deserto
de meu coração inóspito,
que se julga sempre certo
e só segue a própria lei.
De que serve o despropósito
de buscá-las, quando sei
que jamais irei ouvi-las,
quando sei que nada amei,
que meu mundo é uma ilha,
em que nada semeei
e onde a água nem cintila!?
Logo, veio o astro rei
em sua glória de alvorada,
reclamar o seu encanto
e obrigar a retirada
do que, à noite, admirei.
Ao ficar saudoso e em pranto
foi, então, que eu notei
qual seria a minha sina
e, decerto, minha morte.
Eu fechei minhas cortinas,
apostei a minha sorte
e também as minhas fichas
noutra chance e esperei
o findar daquele dia,
para vê-las outra vez
e tentar, de novo, ouvi-las,
não amar para entendê-las;
pois, somente quem não ama
e que é perdida ilha
é que pode amar estrelas.
Está, nelas, meu destino!
O amor, eu encontrei!
O meu novo desatino
é buscá-las, quando sei
que são, elas, do espaço,
que, de amor, eu morrerei,
que jamais irei vesti-las
com meu corpo, num abraço,
que, aos céus, estão unidas,
não a mim em meu terraço...
A fitá-las cedo ainda,
mesmo com todo cansaço,
tresloucado eu viverei,
a invejar o firmamento,
a odiar o astro rei,
a seguir em meu intento
e a contar o que lereis
nestes versos sonolentos,
de quem já perdeu o senso
– a semente que plantei.
22 de janeiro de 2015, 02:22h; 12:45h
23 de janeiro de 2015, 22:35h;

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