domingo, 27 de julho de 2014

Memórias de uma carniça

MEMÓRIAS DE UMA CARNIÇA

                                                                                                  aos infinitos pontos de vista

Esturricada ao solo, estava
à espera de meu amado.
Do chão, morta e atirada,
eu o vi com outra ao lado.

Com minhas pernas para o ar,
chamei sua atenção,
ventre aberto a convidar,  
tressuei vício e paixão.

Desabrochei como uma flor
e exalei o meu perfume,
à vadia, causei horror,
ao meu amado, deslumbre.

Enciumado, o vi ficar 
do que viu por mim sobre:
moscas mil a contemplar
e a lamber meu corpo podre,

do Sol que me cozinhava,
intenso ódio sentiu,
ao céu que me contemplava
ele o inferno preferiu;

e o que dizer do verme
que meu corpo beliscava
e adentrava a epiderme
como ele penetrava

a vagina da vadia
que, com nojo, me fitava?
Era a mim que ele queria
quando para ela olhava!

Eis, aqui, a confissão
que a cretina mereceu: 
"Lindo amor, minha paixão,
astro dos olhos meus,

quando após a extrema-unção
vieres apodrecer, 
horripilante infecção,
assim, tu hás de ser.

Oh!, rainha das Graças,
igual a essa imundícia
sob flores e ervas baças,
céu da minha delícia.

Verei teu perecer,
verei teus brancos ossos.
E o que vai permanecer
além de teus destroços?

Essas larvas libertinas
te beijarão em lentos gostos,
mas a essência divina
de meus amores decompostos

ficará eternamente
amalgamada à natureza
como está esta impudente,
esta infecta impureza."

Aos pedregulhos, atirada,
vou cumprindo minha sina
de carniça desolada,
renegada, à esquina,

carcaça ostentosa
sob chuva, sol, neblina,
ao relento, nauseosa,
a sentir essa rotina

dos seu olhos sobre mim
e a lamber-me a inquilina.
Da morte (eterno fim?),
nos separa a linha fina.

Para mim e meu amado,
então, fechem as cortinas!
Mesmo com a vadia ao lado,
seu fascínio não termina,

sei que está obsedado
por meu cheiro em sua narina
por meu corpo abandonado
para as aves de rapina.


Oria Allyahan

♪ 26 de julho de 2014 - 18:43h; 19:10h ♪
♪ 27 de julho de 2014 - 16:14h ♪


Inspirado no poema Uma carniça, do poeta francês Charles Baudelaire (1821–1867); Tradução do poeta baiano Álvaro Reis (1880 – 1932).


Leia em: <http://borgesdosreis.wordpress.com/2011/04/08/poesia-uma-carnica-charles-baudelaire/>.


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