MEMÓRIAS DE UMA CARNIÇA
aos infinitos pontos de vista
Esturricada ao solo, estava
à espera de meu amado.
Do chão, morta e atirada,
eu o vi com outra ao lado.
Com minhas pernas para o ar,
chamei sua atenção,
ventre aberto a convidar,
tressuei vício e paixão.
Desabrochei como uma flor
e exalei o meu perfume,
à vadia, causei horror,
ao meu amado, deslumbre.
Enciumado, o vi ficar
do que viu por mim sobre:
moscas mil a contemplar
e a lamber meu corpo podre,
do Sol que me cozinhava,
intenso ódio sentiu,
ao céu que me contemplava
ele o inferno preferiu;
e o que dizer do verme
que meu corpo beliscava
e adentrava a epiderme
como ele penetrava
a vagina da vadia
que, com nojo, me fitava?
Era a mim que ele queria
quando para ela olhava!
Eis, aqui, a confissão
que a cretina mereceu:
"Lindo amor, minha paixão,
astro dos olhos meus,
quando após a extrema-unção
vieres apodrecer,
horripilante infecção,
assim, tu hás de ser.
Oh!, rainha das Graças,
igual a essa imundícia
sob flores e ervas baças,
céu da minha delícia.
Verei teu perecer,
verei teus brancos ossos.
E o que vai permanecer
além de teus destroços?
Essas larvas libertinas
te beijarão em lentos gostos,
mas a essência divina
de meus amores decompostos
ficará eternamente
amalgamada à natureza
como está esta impudente,
esta infecta impureza."
Aos pedregulhos, atirada,
vou cumprindo minha sina
de carniça desolada,
renegada, à esquina,
carcaça ostentosa
sob chuva, sol, neblina,
ao relento, nauseosa,
a sentir essa rotina
dos seu olhos sobre mim
e a lamber-me a inquilina.
Da morte (eterno fim?),
nos separa a linha fina.
Para mim e meu amado,
então, fechem as cortinas!
Mesmo com a vadia ao lado,
seu fascínio não termina,
sei que está obsedado
por meu cheiro em sua narina
por meu corpo abandonado
para as aves de rapina.
Oria Allyahan
♪ 26 de julho de 2014 - 18:43h; 19:10h ♪
♪ 27 de julho de 2014 - 16:14h ♪
Inspirado no poema Uma carniça, do poeta francês Charles Baudelaire (1821–1867); Tradução do poeta baiano Álvaro Reis (1880 – 1932).
Leia em: <http://borgesdosreis.wordpress.com/2011/04/08/poesia-uma-carnica-charles-baudelaire/>.

Nenhum comentário:
Postar um comentário